"O que a vida quer de nós é coragem"
- Guimarães Rosa

Dra. Patrícia V. Spada

Dra Patricia Spada - Patrícia Spada Psicóloga na Vila Olímpia São Paulo

Iniciei minha vida estudantil no “Colégio Externato Mater Dei”. Tínhamos como coordenador pedagógico um professor que estimulava desde cedo, a elaboração de redações, lições de casa e todo tipo de produção, inclusive literária, a partir dos próprios alunos, ou seja, de suas próprias mentes e parâmetros pessoais. 

Lembro-me de ser muito prazeroso estudar, descobrir e pesquisar, bem como ir a bibliotecas para aprofundar minhas produções. E com o tempo, este jeito de ser/conhecer passou a ser para mim um plano de vida, onde eu me “garantiria a mim mesma”, minha capacidade de pensar e descobrir sobre a vida.

Estou certa de que estas primeiras experiências intelectuais/emocionais estão até hoje reverberando em mim. Percebo seus desdobramentos quase a cada texto novo que leio ou na releitura de alguns destes. 

 

Aos oito anos, tive a chance de desenvolver intenso contato com a música e iniciei nesta época meu aprendizado com violão. Fiz posteriormente aperfeiçoamento em violão clássico e popular, no antigo “Conservatório Musical Marcelo Tupinambá”; dei muitas aulas para muitos alunos, com os quais – muitos deles – mantenho forte vínculo e alguma convivência até hoje. 

Assim segui até a oitava série, daquela época, hoje nono ano, quando decidi, com o apoio de meus pais, fazer o estudo médio no “Colégio Bandeirantes”. 

Percurso difícil e sofrido. 

Tive que buscar constante e intensamente aqueles recursos tanto didáticos quanto psíquicos do “Mater Dei”, para dar conta de tanta pressão, interna e externa, de tanta matéria e de tanta angústia que vinha junto com a adolescência que – por si só – já é tão turbulenta e disruptiva. 

Entretanto, o planejamento de estudo fora do horário escolar, o profundo empenho para entender as matérias e todo encanto que havia aprendido em meus primeiros anos de escola, pareciam estar presentes e me ajudaram a “sobreviver” ao colegial.

Não sabia bem ao certo que faculdade eu queria. Era algo perto da área de educação, algo que fizesse diferença, que me fizesse sentir que eu poderia ser útil. E que pudesse ajudar as pessoas.

Cursei, então, Pedagogia na “Pontifícia Universidade Católica” – PUC, de São Paulo, com o objetivo de fortalecer didaticamente as aulas de violão que eu ministrava. Mas, embora tenha me ajudado, nem de longe o curso fez com que eu me sentisse satisfeita ou realizada. Imediatamente após a formatura prestei Psicologia e entrei na Universidade Paulista – UNIP.

Lá, tive aulas com três das profissionais que até hoje tenho contato e que me ajudaram a dar sentido e forma ao meu início de vida pessoal/profissional como psicóloga. 

Eu havia “me esquecido na adolescência”, mas me dei conta mais tarde que já havia dentro de mim, como um traço natural de minha personalidade, desde a infância, o desejo de estudar estados e processos mentais do ser humano e ajudá-lo em suas interações consigo mesmo e com o ambiente.

Desta forma, neste percurso – desde o último ano da faculdade de Psicologia – tenho me interessado profundamente por Psicanálise e segui estudando em grupos de estudos, supervisões, palestras, congressos e leituras pessoais. Conheci nesta época a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e desde então venho frequentando todas as atividades abertas ao público, bem como quando sou convidada para assistir apresentação de relatórios.

Trabalhei como voluntária no Hospital Pérola Byington (1999) levando a música de meu violão, juntamente com a Pedagoga da equipe, aos bebês e crianças desnutridas internadas em UTI, algumas com suas mães presentes, outras sem mãe nenhuma…. Destes encontros aconteceram amizades para a vida toda. 

Neste mesmo ano fiz especialização em Saúde Mental, na UNIFESP – “Psicologia da Infância”, com supervisão e coordenação de Dra Mary Lise S. Silveira.

Em seguida à Especialização, fui chamada por uma das amigas psicólogas com a qual trabalhei no Pérola Byington, para ingressar em outra equipe a fim de trabalhar no Programa Einstein de Nutrição na Comunidade de Paraisópolis, (parceria entre a Nestlé e o Hospital Israelita Albert Einstein), “PENCP”, para atender, entre outras demandas, às duplas mães/filhos em risco nutricional – entre elas: adolescentes, gestantes, puérperas, mães e crianças/bebês desnutridos, com excesso de peso e/ou com obesidade. Comecei prontamente os atendimentos. Trabalhávamos muito e em várias frentes, inclusive na parte técnico-administrativa e de planejamento dos grupos, supervisões, atendimentos, etc. Fui indicada para a Coordenação do Setor de Psicologia do PENCP e também para a Coordenação do Setor de Psicologia das Voluntárias, que atuavam no Hospital Israelita Albert Einstein. Experiência difícil que auxiliou meu crescimento pessoal e profissional. Nos atendimentos fiquei muito instigada com os grupos de obesidade e aprofundei meus estudos neste tema. 

Assim, fiz meu Mestrado em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria na Universidade Federal de São Paulo, cujo Orientador foi Fernando José de Nóbrega, intitulado “Características Psicológicas de Mães de Crianças Obesas e a Relação com o Vínculo Mãe e Filho na população atendida pelo Programa Einstein”, em 2003. 

Publiquei meu primeiro livro: “Obesidade infantil: aspectos emocionais e vínculo mãe/filho, pela Ed Revinter, em 2005.

Em 2007 trabalhei como Supervisora e Orientadora do Setor de Estimulação e Habilitação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo, APAE/SP.

Ainda em 2007 iniciei minha Tese de Doutorado intitulado: “Vínculo mãe/filho de mães de crianças obesas e eutróficas: influência de fatores psicológicos e socioeconômicos”, na UNIFESP e com o mesmo orientador – Trabalho que concorreu ao Prêmio Henri Nestlé na revista de Nutrição em Saúde Pública Nestlé Brasil LTDA e foi semifinalista.

Em 2008 fui Capacitadora e Supervisora na Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, com trabalho de Implantação de Capacitações em Municípios de São Paulo, para profissionais da área da Saúde e da Educação, com supervisão de Lia Cypel e Dr Saul Cypel.

Publiquei meu segundo livro em 2008: “Obesidade e sofrimento psíquico: realidade, conscientização e prevenção. Ed FAP – UNIFESP. 

Ingressei no mesmo ano, 2008, no Pós-Doutorado intitulado: “Vínculo Mãe/Filho de mães de crianças com excesso de peso e eutróficas: influência de fatores psicológicos e socioeconômicos”, pelo Departamento de Pós-Graduação em Nutrição, também pela UNIFESP e seguindo com o mesmo orientador. A conclusão deste processo é muito preciosa para mim.

Em 2009 fui Coordenadora do curso “A Psicologia nos Distúrbios Alimentares” no Departamento de Nutrição da UNIFESP cujas áreas de atuação foram: clínica e linha de pesquisa abordando e investigando aspectos psicológicos da alimentação / nutrição, principalmente nos seguintes temas: relação mãe/filho, obesidade infantil e vínculo pais/filhos, dinâmica familiar, obesidade na criança, adolescentes e adultos, atitude materna e influência na condição nutricional do filho, saúde mental materna e crianças que apresentam dificuldades alimentares, entre outros. 

VAMOS CONVERSAR?

Em 2011 – Fui chamada para dar Consultoria nos livros: “Filhos de 2 a 10 anos de idade: dos pediatras da Sociedade Brasileira de Pediatria para os pais”. Organizadores Fabio Ancona Lopez e Dioclécio Campos Junior – Barueri, SP: Manole, 2011. “Da Gravidez aos 2 anos de Idade – Dos pediatras da Sociedade Brasileira de Pediatria para os Pais”. Organizadores: Fabio Ancona Lopez e Dioclécio Campos Junior – Barueri, SP: Manole, 2011.

2012 – Fui convidada para escrever sobre “Alimentação Saudável e Vínculo Mãe-Filho: Como o Pediatra Pode Atuar: Nóbrega FJ; Spada PV in: Manual de orientação do departamento de nutrologia: alimentação do lactente ao adolescente, alimentação na escola, alimentação saudável e vínculo mãe-filho, alimentação saudável e prevenção de doenças, segurança alimentar”. Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria; Terceira edição, revista e ampliada; 2012.

Tenho participado desde 2000 até hoje, de bancas de Mestrado e Doutorado, bancas de Comissões Julgadoras, bem como em eventos, congressos, feiras, entrevistas, programas de televisão, rádio, jornais e revistas impressos e on line.

Em 2015 fui candidata a Pós-Doutoranda no Ambulatório de Medicina Esportiva da Universidade Federal de São Paulo – Setor de Medicina do Adolescente, mas dei preferência à Formação em Psicanálise que iniciei no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae em 2014 e finalizei em 2017.

Antes de fazer minha primeira formação em psicanálise, pensei em fazer Livre Docência, mas, assim como na Pedagogia – salvaguardadas proporções – estaria longe de me trazer realização.

Logo - Patrícia Spada Psicóloga na Vila Olímpia São Paulo

Foi bastante desafiador realizar minhas pesquisas, uma vez que meu número de sujeitos era grande, e eu ia à casa deles para realizá-las. As entrevistas eram feitas sempre com duplas mãe e filho. Entrava em seu ambiente com cautela e zelo, e, ao mesmo tempo, era necessário criar um “setting” de alguma confiança para que pudéssemos conversar sobre os temas propostos, pois todos os sujeitos me foram indicados – eu não os conhecia. Faziam desenhos pessoais, desenhos da família, mãe desenhava o filho e vice-versa, contavam suas dificuldades íntimas e muitas vezes eu não podia dar o aprofundamento que gostaria, visto que eu precisava seguir “o protocolo da tese” – ou seja, aplicar o PROTOCOLO DE AVALIAÇÃO DO VÍNCULO MÃE/FILHO – e OUTROS DOIS INSTRUMENTOS PARA AVALIAÇÃO DE ANSIEDADE E DEPRESSÃO, todos validados e fidedignos.
Ia afinando minha escuta a cada encontro, o que trazia mais e mais a psicanálise para mim e a necessidade de entender meus atendimentos sob seus fundamentos. Sentia em minha pesquisa “quantitativa” uma certa falta de “um ainda não sabia bem o quê”. Hoje eu sei. Não acho interessante nem possível “determinar” previamente, o que vai acontecer no mundo psíquico da criança, ainda que possamos ter ideia sobre situações claramente evitáveis por serem obviamente prejudiciais a ela. Mas, ainda assim é tudo complexo demais para termos certeza de alguma coisa. Como nos conta Mauro Iasi em seu poema “Aula de vôo”: “… conhecimento é assim: ri de si mesmo e de suas certezas…tanto cria como arrasa…a nos mostrar que para o vôo é preciso tanto o casulo como a asa”.
Meu percurso, meu histórico das linhas de pesquisa, os livros, entre outros, têm ligação com o que na época foi possível fazer, em relação a entrar em contato comigo mesma e com minha história de vida e “produzir” a partir disto. Hoje – sobre muitos aspectos – não penso como pensava antes e muito do que escrevi, certamente escreveria diferente. Por este motivo estou trabalhando em meu terceiro livro.
E “asas mais fortes” eu terei.
Penso que a formação em psicanálise acontece durante a vida inteira.
Pretendo continuar a desenvolver meu raciocínio clínico com mais “liberdade” e “personalidade”, entre outros, dando continuidade ao meu plano de vida inicial – propiciar a mim a possibilidade de obter mais conhecimento, com prazer e muito esforço, como sempre.

Cordialmente,
Patricia V Spada